A luz acesa! Chega a ser um temor para muitas pessoas (especialmente mulheres!) quando se veem em um momento de intimidade com um parceiro. As roupas são jogadas pelos cantos, os pudores são deixados de lado e os desejos – ah, os desejos! – é que ditam os passos seguintes. Prestes a se renderem completamente a este instante, timidamente escuta-se o pedido: “que tal a gente apagar a luz?” Bom, aí já é possível imaginar qual a razão de ser desta pergunta, então, vamos a ela.

luz acesa

Vergonha. Está aí a razão principal da luz acesa. Vergonha de não ser aquilo tudo que você acha que ele espera. Vergonha de não se parecer em nada com as moçoilas que estampam as capas de revista com dietas, receitinhas caseiras e milagres que te prometem, cada vez mais, deixá-la com a cara das globais. Vergonha de ser quem você realmente é e de assumir isto, especialmente, para si mesma.

O exemplo acima foi criado apenas como ponte para outra forma de nos despirmos: aquela em que a gente pode SER para o Outro sem receitas, expectativas ilusórias e sem beirar à perfeição de coisa alguma. É quando o Outro se dispõe a me enxergar tal como eu sou, permitindo-me fazer isso de forma clara, ou seja, de luz acesa. É sentir-me na possibilidade de transparecer sem desaparecer, pois creio que isso seja fundamental para que relacionamentos de qualquer natureza possam ser alimentados.

Há pessoas que não aguentam a transparência do outro e logo puxam a carroça. E quando eu digo transparência, não me refiro a estas que se dizem tão sinceras que saem por aí falando verdades ao estilo “doa a quem doer.” As coisas não funcionam tão bem se levadas assim, ao pé da letra.

Na realidade, me refiro às pessoas que reconhecem, com admirável competência, suas falhas e imperfeições com tanta naturalidade quanto o fazem com seus êxitos e acertos. São elas que dizem, sem a necessidade de pronunciar qualquer palavra: “Esta sou eu. Uma pessoa humana tendo experiências humanas. Sinto dor, sinto raiva, tenho medo, sou insegura, tenho desejos, sou capaz de amar e odiar ao mesmo tempo, me estresso quando as coisas não vão bem, me excedo de vez em quando, peço desculpas quando sinto que devo e me esforço para ser melhor a cada dia.”

É desta transparência que falo. Se, ao contrário, só conseguirmos admitir a existência do outro quando na penumbra, sob pouca luz ou no breu total, confessamos nossa incapacidade de aceitar o bom e o ruim que existe dentro de qualquer pessoa, nos “apaixonando” apenas pela ideia que fazemos dela, não por quem ela de fato é.

É fácil curtir a festa quando todos estão dançando, comendo e bebendo. Difícil mesmo é acender a luz, cessar a música, recolher os copos, olhar para a realidade e concluir que toda festa tem hora pra terminar e muita coisa para arrumar. São os dois lados, como tudo nessa vida tem.

Psicóloga Clínica, eterna aprendiz e colaboradora do Zona De Desconforto. Acredita que uma vida bem vivida está mais de acordo com aquilo que se é do que com aquilo que se tem. Não dispensa um abraço apertado e um cafuné demorado. Sabe que viver é tarefa pra quem está disposto.
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