“Quanto vale o seu trabalho?” – eu lhe pergunto. Você logo se apressa em responder, colocando cifras na frente. Mas, não é bem isso que estou perguntando. Não está ligado ao valor monetário, uma vez que este é consequência. Eu quero saber qual o valor subjetivo que você atribui ao trabalho que realiza. Esse trabalho modifica positivamente quem está ao redor? Oferece benefícios para quem usufrui dele? A continuidade da atividade é capaz de gerar contribuições significativas aos envolvidos?

quanto vale o seu trabalho

Se você respondeu ‘sim’ a todas estas indagações, então você crê que seu trabalho tem (MUITO) valor e eu levantei este questionamento no presente texto, pois, como psicóloga recém formada com alguns meses de prática clínica, tenho me feito essas mesmas perguntas.

Creio que, em início de carreira, temos a tendência de aceitar situações da maneira como elas chegam para nós, pois alegamos que é preciso ter humildade neste início e que tudo vem para nós como aprendizado. Concordo em parte com estas ideias. Precisamos mesmo, especialmente neste começo de caminhada profissional, fazer prevalecer a humildade para que os erros sejam vistos com menos pavor, para perceber que estamos nos inserindo em um novo contexto de vida e, principalmente, entender que é aos poucos que vamos descobrindo de qual maneira trabalhamos melhor. É no dia a dia, tijolo por tijolo, que construímos o nosso “modelo de trabalho.” Também concordo que tudo é aprendizado, pois uma situação nova que lhe é totalmente desconhecida passa, aos poucos, a ter menos impacto sobre você, deixando-o menos ansioso e desesperado por resultados.

Mas é aí que se faz necessário um alerta. O fato de estar aprendendo o tempo todo e de ter certa resignação com o que lhe acontece, não quer dizer que você tenha que fechar os olhos ao que pode, a curto ou longo prazo, te prejudicar. Explico melhor. Em minha área de atuação, se eu não deixar o contrato de trabalho muito bem estabelecido, as pessoas fazem o uso que quiserem dele, com suas próprias regras. Explico ainda melhor. Sessões de terapia acontecem em determinado dia da semana e em um determinado horário. Este dia e este horário são fixos, pertencem ao paciente, portanto, não são utilizados por outros.

O psicólogo não “passa à frente” outra pessoa que esteja aguardando na sala de espera caso seu paciente do presente horário não tenha aparecido, pelo contrário, ele aguarda até o último minuto pela sua chegada. Neste caso, a não vinda do paciente, que suponhamos, não avisou com antecedência que se ausentaria, implica no pagamento da sessão. Ora, em contrato foi estabelecido que, aquele horário, naquele dia da semana é dele e de mais ninguém e que este é seu único compromisso com o profissional. Agora, o que ele faz com esse horário é da conta dele e isso não quer dizer que não tenha que honrar com o que foi acordado. Mas, levando-se em consideração a pouca experiência e o manejo clínico que ainda é bastante “cru”, muitos profissionais deixam passar estes significativos detalhes, confiando ao paciente o poder de ditar como a terapia funciona e isto está errado. É aí que entra a ideia de valor.

Enquanto eu, como profissional, não for capaz de estabelecer dentro de mim o valor que tenho e o valor do trabalho que desenvolvo, é muito improvável que as pessoas lhe deem o devido crédito e que paguem o preço, emocional e financeiro, por ele. Isto não vale apenas para psicoterapia, mas para quaisquer tipos de trabalho.

Portanto, minha gente trabalhadora, uma vez que você tenha compreendido que não se trata de ser escravo do dinheiro que seu ofício produz, mas tão somente assimilar que é dele que provêm o seu sustento e que, inseridos no sistema capitalista, é assim que a banda toca, não se esconda debaixo do tapete. Mostre, com todas as letras (desde que não sejam aquelas miúdas de rodapé) que seu trabalho tem valor e que o preço monetário que cobra por ele é justo. É você quem diz quanto vale o seu trabalho.

Ah, e lembre-se, principalmente, que sempre há quem pague por ele. SEMPRE!

Psicóloga Clínica, eterna aprendiz e colaboradora do Zona De Desconforto. Acredita que uma vida bem vivida está mais de acordo com aquilo que se é do que com aquilo que se tem. Não dispensa um abraço apertado e um cafuné demorado. Sabe que viver é tarefa pra quem está disposto.
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