Todas as quintas feiras eu costumo passar pelas mesmas ruelas até chegar ao destino final, o consultório da minha supervisora, para iniciar mais um dia de estudos de caso e de textos. Em meio a este percurso há um sebo, o qual comecei a “namorar” todas as vezes que por ele passava, mas nunca tomava a iniciativa de entrar para conferir as relíquias que ali eram guardadas.

Você mesmo

Pois bem, dia desses em que voltava para casa refazendo o mesmo trajeto me bateu um comando interno que disse: “dessa vez você vai entrar pra ver o que tem aí.” Eu nem discuti com a força oculta, apenas obedeci ao comando e não me arrependi por fazê-lo. Quem me conhece sabe do meu amor pela leitura.

Nada substitui a delícia de folhear as páginas, sentir o cheiro, e, em se tratando de sebo, pensar nas infinitas mãos que já passaram por cada um daqueles livros, o uso que fizeram, as anotações que escreveram, os rabiscos que deixaram. São livros com história de vida própria, além daquelas transcritas em suas páginas. E, olhando para aquele mar sem fim de conhecimento, comecei a reparar nas capas, no quanto algumas estavam rasgadas, descoloridas e com edições bem antigas. Livros que passam por muitas edições ficam quase irreconhecíveis se comparados à sua primeira.

De repente, sentindo tudo isso em meu momento de êxtase supremo, me acometeu um insight: Não teríamos nós aspectos em comum com esses livros? E logo respondi para mim: É claro que sim. Assumimos infinitas edições de nós mesmos. Se folhearmos as páginas da nossa história, veremos lá atrás quantas coisas fizemos que, boas ou ruins, nos trouxeram até o lugar que ocupamos hoje.

Acredito que a ‘razão de ser’ das sucessivas edições esteja no aprimoramento, no complemento de conteúdos que se fazem necessários e que vão sendo concatenados ao longo do tempo a partir do olhar crítico, porém não menos cuidadoso, daqueles que se interessam por elas. Somos nossa própria obra. As edições anteriores, a meu ver, correspondem à todas aquelas pessoas que um dia já fomos, que muito nos ensinaram e que continuam ensinando.

Olhamos para aquele passado, localizando nossos êxitos e fracassos e selecionamos quais aspectos de nossa personalidade queremos ver participar da nossa próxima edição e quais devem ser deixados de lado. Tudo isso está ligado à nossa capacidade de crescimento e de elaboração dos nossos diferentes estágios de desenvolvimento, das edições de você mesmo.

Mas se você me perguntar qual é a melhor edição de mim mesma eu vou te responder com toda sinceridade: NÃO SEI. Só sei que todas elas tiveram papel importantíssimo na formação da minha edição mais atual, esta que vivo HOJE.

Psicóloga Clínica, eterna aprendiz e colaboradora do Zona De Desconforto. Acredita que uma vida bem vivida está mais de acordo com aquilo que se é do que com aquilo que se tem. Não dispensa um abraço apertado e um cafuné demorado. Sabe que viver é tarefa pra quem está disposto.
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