Se descobri-los, não deixe de me contar. Muitos de nós, em vários momentos, direta ou indiretamente, refletimos profundamente sobre nossas escolhas, nossos caminhos. Nos preocupamos em testemunhar um resultado bem sucedido das opções que fizemos. Sentimo-nos orgulhosos quando as coisas vão bem e ficamos desapontados quando elas vão mal.

caminhos

Mas, esse julgamento a respeito do bom e do mal talvez seja um equívoco. Como saber se, de fato, nos foi prejudicial? Bem, talvez eu tenha um palpite. Acreditamos que algo é ruim quando fura as nossas expectativas. Quando tomamos uma atitude, tendemos a pensar aonde ela pode culminar e, então, decidimos se vamos adiante ou não, baseando-nos sempre pelas nossas “previsões”. É como decidir ir à praia mediante a consulta feita no site de meteorologia. Como a previsão disse que daria sol, você resolveu descer, confiante que lá o sol estaria. Ao perceber que o tempo fechou, o sol se escondeu e a chuva caiu, de imediato acredita que tudo deu errado, que o passeio foi um fiasco, afinal de contas, você só foi à praia porque a previsão havia lhe dado o cenário que tanto queria.

“Se isso saiu da forma como eu esperava, deu certo. Se aquilo frustrou todos os meus planos, deu errado.” Creio que por essa linha de pensamento é que pautamos os sucessos e os fracassos dos caminhos de nossas vidas. Criamos um modelo pronto que nos diz se algo foi ou não favorável. Mas estamos cansados de saber que a vida não vem com manual de instruções e que a única forma de aprender alguma coisa com ela é experimentando as vivências que ela nos traz. Se vivermos apegados aos resultados, deixamos de experimentar possibilidades, pois o medo de que “não dê certo” por vezes manipula nossas ações.

Na maravilhosa crônica “Meus queridos erros”, redigida por Ivan Martins, colunista da revista Época, ele menciona uma singela frase, de tamanho significado, que ficou na minha cabeça por horas, na qual diz: “Cada gesto, cada forma de ação, cria o seu próprio futuro – e nele vamos nós, com nosso valoroso barquinho de papel em meio à corredeira.”

Ter lido essa frase foi colírio para os meus olhos. Para enxergar o nosso real tamanho frente a essa imensidão desconhecida que é viver, que não nos dá garantia alguma dos resultados alcançados, há que se ter um tanto de desapego e outro tanto de coragem. Coragem para arriscar descer a corredeira de olhos vendados no barquinho de papel. Talvez nos falte mesmo humildade. Humildade para ver que a vida vai sendo feita aos poucos e que todas as nossas escolhas implicam em um resultado. O resultado é a única coisa que existe, na verdade. Se foi bom ou se foi ruim, aí é julgamento nosso e costumamos dividir as coisas dessa maneira, pois assim alimentamos aquela doce ilusão de que temos controle sobre alguma coisa, portanto, que poderíamos ter evitado determinadas situações. Mas não poderíamos, porque não somos seres onipotentes. Não nos foi dada a capacidade de antever acontecimentos. Tudo o que temos é o presente e o que fazemos com ele hoje. Nosso poder termina aqui.

Se ficarmos realmente atentos, veremos que há certa ‘coerência’ nos acontecimentos tidos como desastrosos. Nós nunca saberemos do que fomos “livrados” ou qual a mensagem construtiva que determinada situação nos deixou. Tudo isso porque só conseguimos olhar o que se apresenta explicitamente aos nossos olhos. É como ignorar que fazemos parte do Universo só porque não conseguimos enxergar nada que esteja muito além da cidade onde moramos. Mas o Universo está lá, com uma infinidade de coisas acontecendo sem que estejamos testemunhando. Há tanta coisa maior em andamento e ficamos sempre tão presos aos pequenos acontecimentos, olhando-os com ingratidão quando nos frustram.

Percebe como a vida pode se tornar mais leve se, para variar, não a levarmos tão a sério? Pois acredite, ela não te leva tão a sério quanto você imagina.

Psicóloga Clínica, eterna aprendiz e colaboradora do Zona De Desconforto. Acredita que uma vida bem vivida está mais de acordo com aquilo que se é do que com aquilo que se tem. Não dispensa um abraço apertado e um cafuné demorado. Sabe que viver é tarefa pra quem está disposto.
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