Há uma semana eu tive a oportunidade de participar de uma prova de corrida com extensão de 5km. Costumo dizer que foi o meu batizado, pois nunca havia passado pela experiência e, como tudo na vida, eu tinha 50% de chance de gostar muito ou de não gostar nada, acabando por achar tudo uma grande bobagem. Felizmente, fiquei com os primeiros 50%.

Coloca o mundo no “mudo” e segue a tua estradaEu havia ido sozinha, sem companhia para correr ao lado, sem conhecidos me endereçando palavras de incentivo ou fazendo brincadeiras descontraídas para despistar o nervosismo. Mas, ainda assim, eu pude testemunhar o quanto o mundo ao redor pode ser generoso conosco. Uma e outra pessoa se aproximou para bater um papo, questionando em quanto tempo eu esperava fazer a prova, ao que eu lhes respondi: “minha pretensão de hoje não é bater tempo, é concluir o trajeto.” Acolheram minha resposta com generoso sorriso, desejaram-me sorte e partiram.

Pois bem, fui em direção à área de largada, fiz meu aquecimento e prontamente selecionei a playlist que me acompanharia por todo o trajeto. Ao colocar meus fones, notei que tudo à minha volta silenciara e, naquele instante, eu só contava com as notas musicais e comosom dos meus próprios pensamentos. Esqueci-me de tudo o mais que não participasse daquele momento. O foco era a respiração, a manutenção do ‘pace’ e a visualização da linha de chegada. Foi dada a largada.

Antes mesmo de completar o primeiro quilômetro foi possível ver a chuva que caminhava em nossa direção. Um paredão branco desabaria dali alguns minutos, era só questão de tempo. E assim ela veio, mas sabe que foi bom?! Estava precisando mesmo me refrescar. Bem, dali em diante teve de tudo: barro, pedra, descida pra ir e subida pra voltar. Nada disso me desanimava, muito pelo contrário, só aumentava a adrenalina. Deixei alguns para trás, outros tantos passaram ligeiros à minha frente, mas nada que tivesse importância. O tempo todo eu corria comigo, eu desafiava o meu cansaço, eu conversava com a minha mente, eu administrava o meu ritmo. E foi assim que eu, como tantos outros, cruzei a linha de chegada.

Coloca o mundo no “mudo” e segue a tua estradaO tempo todo na vida estaremos cercados de pessoas nos dizendo aonde ir, qual caminho tomar, de que jeito fazer, sempre crendo que o fazem para o nosso bem. Vira e mexe seu pai vai lhe dizer que bom mesmo é você prestar um concurso, que o salário te garantirá uma vida estável e que você permanecerá seguro até o dia do último suspiro. Bobagem! Quem disse que você quer esse tipo de segurança? E o que garante realmente que estaremos seguros vivendo conforme os ditames da sociedade?

Creio que a única forma de vivermos “seguros” é por meio da convicção de que ninguém melhor do que nós mesmos é capaz de traduzir fielmente o que alimenta a nossa alma. Não importa quantos estejam correndo ao seu lado, nem o que estão fazendo. É no seu objetivo, e só nele, que você deve se deter. Tal qual pude perceber na corrida, uns estavam lá pelo pódio, outros para reduzir seu próprio tempo e muitos por pura diversão. Nada disso tinha peso para mim. O importante era que eu sabia por que estava ali e, tal como imaginei, fui atrás da conclusão de meu tão sonhado objetivo.

Minha vitória foi silenciosa, uma das mais emocionantes da minha vida e só veio confirmar que os aplausos mais sinceros que você pode vir a receber não se encontram do lado de fora, mas estão sempre presentes do lado de dentro.

Psicóloga Clínica, eterna aprendiz e colaboradora do Zona De Desconforto. Acredita que uma vida bem vivida está mais de acordo com aquilo que se é do que com aquilo que se tem. Não dispensa um abraço apertado e um cafuné demorado. Sabe que viver é tarefa pra quem está disposto.
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